Fabiana de Barros | Imagens do Interior

22 Agosto - 17 Outubro 2026
Apresentação

A Luciana Brito Galeria tem o prazer de apresentar Imagens do Interior, de Fabiana de Barros.  A artista brasileira, radicada na Suíça desde 1985, retorna ao Brasil para apresentar um conjunto inédito de trabalhos, resultado de uma pesquisa desenvolvida ao longo dos últimos dez anos. A exposição propõe uma reflexão não apenas sobre a autopercepção, mas também sobre a possibilidade de reconhecer humanidade e vulnerabilidade em uma cultura marcada pela autoimagem, pela mediação tecnológica e pela performance contínua.

 

Fabiana de Barros - Imagens do Interior
Abertura - 22 de agosto, das 12h às 17h
Em exposição até 17 de outubro

 

Fabiana de Barros 

Imagens do Interior


Reunindo gravuras, colagens, assemblages de resina mineral e instalações, Fabiana de Barros aborda a noção de “beleza interior” não como um valor moral, mas como um campo instável entre ética, imagem e subjetividade. Em um contexto marcado pela estetização da vida e pela fabricação contínua de identidades, Imagens do Interior problematiza as fronteiras entre subjetividade, imagem e experiência coletiva. Embora compreendamos a subjetividade como um núcleo particular, Fabiana de Barros a posiciona também como um campo relacional, continuamente moldado pelo encontro com o outro e pelos sistemas de representação que atravessam a vida contemporânea. Como obra central da mostra, a instalação Você acha que a gente pode ser o jogo e a regra do jogo ao mesmo tempo? (2026), realizada em colaboração com o cineasta suíço Michel Favre, ocupa o jardim projetado por Roberto Burle Marx com projeções holográficas em ventiladores dispersos pelo espaço. Entre imagens de explosões atômicas e frases inquisidoras — como “Será que o sofrimento é um utensílio para construir a beleza interior?” —, a obra cria um ambiente de instabilidade perceptiva no qual tecnologia, memória e imaginação coletiva se entrelaçam.


Nesse mesmo ambiente, a obra Beleza Interior (2026), uma ampla poltrona de madeira e alumínio concebida como espaço de permanência e experiência, retoma uma proposição desenvolvida por Fabiana de Barros em 2008, em Genebra. Na ocasião, a artista realizou o evento Concurso de beleza interior para um piquenique antropofágico, no qual um anúncio público convidava participantes a indicar pessoas cujos gestos, comportamentos e qualidades revelassem sinais de “beleza interior”. Dez candidatos foram selecionados e submetidos a uma dinâmica inspirada simbolicamente no ritual antropofágico modernista: diante de um júri, apresentavam ao coletivo aquilo que possuíam de mais valioso: sua própria subjetividade.


Em diálogo com a leitura proposta por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago (1928), a antropofagia surge aqui não como ato de violência, mas como processo de assimilação, troca e transformação do outro. Convidado agora a ocupar a “cadeira da beleza interior”, encoberta por uma bruma artificial (parte da instalação), o público é inserido em uma experiência de autoanálise e suspensão perceptiva. Nesse contexto, o espaço da galeria, antiga residência modernista projetada por Rino Levi, torna-se também parte da obra, ampliando as relações entre ritual, memória e construção coletiva da subjetividade. Para contextualizar a instalação, a artista apresenta ainda documentos, imagens e materiais relacionados ao happening original de 2008.


Esse debate em torno da beleza interior, que atravessa toda a exposição, não poderia ter se constituído de outra forma a não ser pelos próprios processos de criação e, consequentemente, do universo particular da própria artista. Na série Imagens do Interior (2020), que dá nome à mostra, camadas de papel e colagens são minuciosamente sobrepostas, formando pequenas assemblages que evocam fragmentos de paisagens, como recortes para um alfabeto visual. “Imagens do Interior são desenhos que faço desde que existo. Eu dou forma às ações do dia a dia”, afirma a artista.


Essa construção da percepção, baseada na associação, também aparece na série Paisagem (2020), em que formas produzidas em resina mineral são extraídas de moldes de silicone e servem de base para sucessivas camadas de resina pigmentada, atribuindo profundidade, textura e densidade a cada obra. Com essa mesma técnica, Fabiana de Barros apresenta Próximos Fantasmas, um conjunto inédito de cinco trabalhos de pequeno formato, reunidos em uma única instalação. A obra toma a figura do fantasma como metáfora para refletir sobre as presenças invisíveis que atravessam a experiência humana. A artista, dessa forma, transforma a instalação em um campo alegórico de ressonâncias afetivas, no qual fantasmas pessoais e coletivos coexistem e se refletem mutuamente.


Em consonância aos princípios da Gestalt, a produção de Fabiana de Barros compreende a imagem como uma experiência em permanente reorganização, na qual sentido e forma emergem da relação entre fragmentos. Nesse aspecto, sua pesquisa se aproxima de questões que também atravessaram o Construtivismo brasileiro, parte ativa de seu contexto de vida ainda como jovem artista: a ideia de que o todo não resulta apenas da soma das partes, mas das relações perceptivas e sensíveis construídas entre elas.

Obras