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Galeria Luciana Brito

Caio Reisewitz: Cassino

LB News
  • Caio Reisewitz, "Cassino VI", 2019
    1/4

“Se a gente prestar atenção e fizer silêncio
– se a gente prestar atenção e fizer
silêncio –
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.” 
[i]

  

Para quem se depara com a mais recente série de Caio Reisewitz tendo para si apenas aquilo que vê e o título – Cassino – parece existir, entre as imagens e o nome que as batiza, uma espécie de contradição. Primeiro, nos ocupemos do que é endereçado ao olhar. Estamos diante de cinco grandes fotografias, todas em altíssima definição, nas quais se descortinam paisagens da orla de alguma praia deserta. Como é comum na produção do artista, não é deixada pista alguma a respeito da identidade do lugar fotografado. Nenhum vestígio nos diz sobre qual seria a sua localização exata no mapa. Como já foi escrito certa vez, suas paisagens “são antes espaços do que lugares”.[ii] Outra característica da obra de Reisewitz, também presente aqui, encontra-se na visualidade de cunho romântico, evidente em sua aspiração a uma grandiosidade relacionada ao sublime. É marcante, ainda, a natureza fortemente pictórica dessas imagens, que, embora estáticas, guardam um sentido de movimento. Cada uma das fotos parece retratar horas distintas do dia em uma mesma orla. Mas, para além de todas essas dimensões, chama atenção, sobretudo, o silêncio que o vazio ali implicado transmite. A atmosfera enevoada, as diferenças sutis entre o que é céu, nuvem, areia ou mar, tudo trabalha em conjunto para nos falar na língua do murmúrio, e nunca daquilo que grita ou berra. Ora, nada mais diverso desse ethos que escolhe murmurar do que o sentido da palavra que nomeia as imagens. Quando pensamos em cassinos, logo nos vêm à mente as ideias de jogo, aposta, em meio a um ambiente estridente, ruidoso, repleto de toda sorte possível de distrações. Ilusão e manipulação são outras faces que habitam esses territórios.

Mas cassino é, justamente, o nome do trecho brasileiro da imensa praia, localizada na fronteira com o Uruguai, que vemos hoje na obra de Reisewitz. Me parece habitar aí, na fricção paradoxal entre o que vemos e tudo aquilo que o título evoca, grande parte da voltagem poética dessas fotografias. A tensão semântica existente entre palavra e imagem é capaz de deflagrar, assim, uma série de relações que nos levam a escutar o pulso do tempo presente.

Aqueles que acompanham de perto a produção do artista sabem que se cultiva ali uma longa reflexão a respeito do gesto fotográfico como construção do real, assim como um diálogo com questões derivadas do antropoceno ou, falando em uma linguagem mais simples, do estágio no qual humanos substituíram a natureza como a força ambiental dominante na Terra, provocando com isso impactos que, no limite, ameaçam a vida no planeta. Nos últimos anos, Reisewitz esteve dedicado, por exemplo, a séries como Altamira[iii] (2013/2018) e Água escondida[iv] (2014). Arrisco dizer que os trabalhos que vemos hoje, ao contrário do que pode sugerir uma primeira mirada, não são sintomas de um alheamento deste contexto, mas o inverso.

Ao solicitarem uma paciência do olhar, em tudo diversa da ansiedade que rege a relação com as imagens na vida virtual; ao evocarem um tempo dilatado próprio da pintura; ao enxergarem ali, onde nada parece acontecer, um insuspeitado acontecimento poético; ao se aproximarem da noção de sublime, capaz de nos recordar os limites do poder humano diante da natureza; ao nos darem a ver a passagem das horas tendo o movimento das nuvens como guia; ao evocarem uma atmosfera onírica, na qual os limites entre realidade e artifício estão borrados; ao incorporarem o vazio, não como representação do nada, mas como o que existe e afeta; ao flertarem com o desaparecimento da imagem, buscando o que seria um limite da representação; em tudo isso essas fotografias de Reisewitz afirmam a chance de um lugar diverso deste que nos assedia: o do grande mundo-cassino. Um mundo em que a manipulação do real se tornou estratégia maior do poder; um mundo em que “Deus não morreu, ele se tornou o dinheiro”;[v] um mundo que faz o elogio incessante da aceleração, da vigília, e é inimigo da contemplação, do sono, do sonho, da imaginação, sendo assim, desencantado; um mundo sem temporalidades alternativas, portanto escravo da ordem produtivista do capital; um mundo que se descortina diariamente a partir do brilho estéril das telas dos celulares, em uma dinâmica ininterrupta de estímulos que findam por atrofiar a nossa capacidade perceptiva, fazendo-nos escravos de uma constante atenção distraída; um mundo no qual, no mês de agosto, São Paulo recebeu um céu escuro que fez do dia noite, pois o que havia acima de nós era uma floresta queimando.

É justamente em diálogo com este mundo que surgem essas cinco grandes fotografias.[vi] Afirmam, cada uma, o avesso do mundo-cassino. Caio Reisewitz flagra a imensa praia ao sul do país para construir a imagem de uma praia que não existe de fato, mas sim somente enquanto fotografia (sim, essas fotos são quase pinturas). De alguma maneira, o artista também ilude e manipula, mas com o intuito contrário daquele presente nas casas de aposta. Aqui, silêncio e vazio anunciam uma chance de vida em outra margem enquanto ainda há tempo. E a cada dia há menos tempo. Mas, seguindo as palavras da poeta, “se a gente prestar atenção e fizer silêncio – se a gente prestar atenção e fizer silêncio – pode ser que ouça alguma mensagem perdida no ar”.

 Luisa Duarte

 

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[i] Esses são os últimos versos do poema “Hola, spleen”. In: GARCIA, Marilia. Câmera lenta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

[ii] Ver COCCHIARALE, Fernando. Parece verdade. In: REISEWITZ, Caio. Parece verdade. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

[iii] Em Altamira, Caio Reisewitz elegeu a região da floresta de Belo Monte, delimitada pelo rio Xingu, em vias de extinção devido à construção da terceira maior hidrelétrica do mundo na região, para toda uma série de fotografias. As imagens revelavam uma natureza intocada, na qual a presença humana parece não existir, expondo o paradoxo de uma floresta que em breve não estaria mais lá.

[iv] Em Água escondida, projeto realizado em parceria com o IMS, encontra-se uma preocupação que perpassa a obra de Caio Reisewitz desde o início, qual seja, a relação conflituosa entre natureza e desenvolvimento urbano. Nesta série, o artista explora a relação entre a água e a cidade, fotografando centros urbanos, periferias, rios, nascentes e represas; para tanto, registra não só locais que negam e agridem suas fontes de água como também aqueles que as incorporaram como espaço de conexão e convivência. Reisewitz não se limita, porém, à paisagem ou à denúncia; antes, embaralha a nossa percepção, dando-nos a chance de refletir uma vez mais sobre esse conflito seminal para o destino da vida na Terra.

[v] Trecho de entrevista concedida pelo filósofo italiano Giorgio Agamben em 2012. Para tradução, ver: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/512966-giorgio-agamben>.

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abertura: 31/08/2019, 12h – 18h

visitação: 31/08/2019 - 26/10/2019

terça a sexta, das 10h às 19h;

sábado, das 11h às 18h

*sugerimos utilizar Uber e táxi